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BRASÃO DO PAPA BENTO XVI
Três
símbolos ilustram o brasão escolhido pelo papa Bento
XVI, todos eles diretamente ligados à história ou
a lendas religiosas, uma delas, da região da Baviera, sul
da Alemanha, terra do Romano Pontífice. Segundo dom Andréa
Cordero Lanza di Montezemolo, arcebispo titular de Tuscania, outrora
núncio apostólico na Itália e na República
de San Marino, perito em heráldica e criador do novo brasão
papal, “Bento XVI escolheu um brasão rico em simbolismo
e significado, para inserir a sua personalidade e o seu pontificado
na história”.
O campo principal do brasão, vermelho,
apresenta dois lados que constituem uma “capa”, de ouro.
A “capa” é o símbolo da religião,
que indica um ideal inspirado na espiritualidade monástica
e, mais tipicamente, naquela beneditina. Algumas ordens e congregações
costumam usar a capa em seus brasões.
Os elementos que caracterizavam seu brasão episcopal como
arcebispo de Munique e Freising e depois como cardeal-prefeito da
Congregação da Doutrina da Fé (antigo Santo
Ofício, como muitos têm o prazer de dizer), continuaram
presentes, agora ordenados de modo diferente. A esses elementos
são acrescentados a mitra e o pálio pontifícios,
além das chaves de São Pedro.
A figura que ocupa o centro do brasão é uma grande
concha de ouro, que tem pelo menos três significados: antes
de tudo, refere-se a uma famosa lenda envolvendo Santo Agostinho:
o Santo bispo passeava por uma praia, meditando sobre o impenetrável
mistério da Santíssima Trindade, quando teve sua atenção
despertada por uma criança que, com uma concha, derramava
a água do mar num pequeno buraco cavado na areia. Ao ser
questionado sobre o que estava a fazer, a criança respondeu:
“estou a despejar o mar neste buraco”. Assim, a concha
é o simbolismo da imersão no mar da divindade, portanto,
um significado teológico: a limitação da mente
humana jamais permitirá total penetração no
mistério insondável de Deus.
Nosso papa doutorou-se em teologia em 1953 com a tese: “Povo
e casa de Deus na doutrina da Igreja de Santo Agostinho”.
A concha relembra também a dimensão de ser peregrino,
simbolicamente ligada a um dos conceitos mais centrais do Concílio
do Vaticano II: o Povo de Deus, peregrino, do qual, o papa Bento
XVI foi chamado a ser pastor, buscando, desse modo, também
seguir o caminho de peregrino traçado pelo seu antecessor,
o papa João Paulo “Magno”, que testemunhou em
todo o mundo seu peregrinar, confirmando seus irmãos na fé.
Por último, a concha lembra ainda o mesmo símbolo
que ele vira no brasão do antigo Mosteiro de Schotten, perto
de Ratisbona, na Baviera, ao qual sente-se espiritualmente muito
ligado. A casula que utilizou no dia em que deu início ao
seu ministério solene de pastor universal da Igreja trazia
uma grande concha e diversas conchinhas, sinalizando certamente
seu propósito de ser um peregrino que vai anunciar a todos
a Boa Nova do Senhor, ensinado-os a nada anteporem absolutamente
a Cristo.
Na capa esquerda de quem vê o brasão, encontra-se a
figura de um homem, conhecido como o “mouro de Freising”.
Esse perfil, com uma coroa vermelha, um colar e os lábios
também vermelhos, já aparecia no brasão da
antiga diocese-principado de Freising em 1316, nos tempos do bispo
Conrado III, assim permanecendo até os inícios do
século XIX. Essa diocese foi fundada no século VIII,
tendo tornado-se sede metropolitana quando unida à de Munique
em 1º de abril de 1918. Desde então, todos os arcebispos
de Munique e Freising têm posto essa imagem em seus brasões,
ela que é também chamada “caput Aethiopicum”,
e pode ser vista ainda hoje no brasão do Cardeal Friedrich
Wetter, atual arcebispo de Munique e Freising.
Um elemento curioso do novo brasão está na capa do
lado direito de quem vê, é a figura de um urso com
um alforje, conhecido como o “Urso de Corbiniano”. Ele
faz parte da lenda do bispo Corbiniano, que anunciou o Evangelho
no século VIII, na antiga Baviera, sendo venerado ainda hoje
como pai espiritual e padroeiro da arquidiocese de Munique e Freising:
segundo a lenda, durante uma viagem que empreendeu até Roma,
um urso devorou seu cavalo. O santo teria, então, ordenado
ao urso que levasse sua bagagem à Cidade Eterna. Ao chegar
em Roma, o santo liberou o urso, que voltou a viver nos bosques
da Baviera. Assim, simbolicamente, o cristianismo amansou e domesticou
o paganismo selvagem e introduziu na Baviera os fundamentos de uma
grande cultura. O “Urso de Corbiniano” simboliza também
o peso do ministério, encontrando, agora essa figura, uma
nova pátria também em Roma.
Em cima do brasão aparece pela primeira vez aquela que poderemos
chamar de mitra “papal” e não mais a tiara, como
aparecia até então nos brasões pontifícios.
Na mitra papal encontramos, contudo, as três faixas de ouro,
dantes representadas na tiara, que estão coligadas entre
si, e representam o tria munera exercidos pelo Santo Padre: santificar,
governar e ensinar, funções que, com o seu serviço
ordinário supremo, pleno, imediato e universal, pode sempre
exercer livremente buscando a salvação de todos.
Em baixo do brasão, encontra-se o pálio do metropolita,
grande novidade, pois há muito não figurava num brasão
pontifício, mas é apresentado com cruzes vermelhas
e não pretas como daqueles que recebem os metropolitas em
Roma, por ocasião da Solenidade do Apóstolo São
Pedro, sendo esse um sinal da colegialidade e da subsidiariedade
entre eles e o Romano Pontífice. O pálio é
desde o século IV também uma insígnia litúrgica
típica do pontífice, indicando a sua missão
como pastor do rebanho que lhe foi confiado pelo Senhor; àquele
recebido, juntamente com o anel do pescador é semelhante
ao omophorion utilizado pelos patriarcas das Igrejas Orientais Católicas
ou mesmo pelos patriarcas das Igrejas Ortodoxas.
As duas chaves, uma de ouro e outra de prata, lembram o poder dado
a São Pedro, pelo Senhor, de ligar e desligar (Mt 16,19).
É vista também por muitos como símbolos do
poder espiritual e temporal, esse último certamente mais
evidenciado no tempo em que existiam os Estados Pontifícios.
Para os amantes da heráldica, o brasão pode ser assim
descrito: “Vermelho, com capas de ouro e concha do mesmo metal;
na capa direita possui uma cabeça de mouro ao natural, com
a coroa e o colar em vermelho; na capa esquerda possui um urso ao
natural, de lampazo, carregando um alforje, atado por cintas pretas”.
O lema do papa não foi ainda revelado, mas se acredita que
será o mesmo que ele tinha como cardeal-arcebispo de Munique
e Freising: “Colaborador da verdade” (3Jo 8) ou, até
mesmo, aquele que citou por ocasião da sua primeira audiência
pública ao falar de São Bento: “Desse pai do
monaquismo ocidental, conhecemos a recomendação deixada
aos monges na sua Regra: "Nada anteponham absolutamente a Cristo"
(RB 72, 11; cf. 4, 21). No início do meu serviço como
Sucessor de Pedro, peço a São Bento que nos ajude
a manter firme a centralidade de Cristo na nossa existência.
Que ele esteja sempre em primeiro lugar em nossos pensamentos e
em cada uma das nossas atividades!”. Não ter ainda
o lema, ou não tê-lo, em definitivo, não significa
“falta de programa, mas ao contrário, uma abertura,
sem exclusão, a todos os ideais que derivam da fé,
da esperança e da caridade”.
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